existem muito poucos lugares do mundo que podemos chamar de casa. casa é sinónimo de família. lugar de protecção, de segurança, de criação de alicerces. força para sobreviver num mundo programado para nos receber como se fôssemos capazes de resistir a tudo, como um bambu que não se parte por mais forte que seja o vento. casa é o lugar de onde guardamos as mais profundas recordações. é o lugar que habita para sempre a memória, como um quarto que fica fechado, intocável, onde vamos sempre encontrar, no mesmo sítio onde os deixámos, todos os álbuns de fotografias e objectos antigos, cada um a guardar em si uma estória, parte da história. casa é o lugar para onde podemos voltar sempre, passem-se anos ou séculos, mudem-se os tempos ou as vontades. podemos voltar sempre que quisermos e onde quer que estejamos, porque, mesmo que já não existam nem os quartos nem as pessoas, este é um lugar na memória que nunca pode ser substituído e que continua a oferecer a protecção de uma redoma. a minha casa é o lugar que guarda os rostos e as vozes que fizeram de mim aquilo que sou hoje. é o lugar que esboçou os meus sonhos, que desenhou de leve e a lápis a linha da minha vida, esta linha que, todos os dias, faço por tornar mais carregada a tinta-da-china. é o lugar que guarda cada palavra e cada gesto que entrou na minha pele e que agora faz, quem está à minha volta, orgulhar-se das minhas palavras e dos meus gestos. faz-me a mim, orgulhosa das minhas palavras e dos meus gestos. a minha casa são os meus pais, são os meus avós, são as minhas madrinhas, os meus tios e os primos. a minha casa é o meu gato. são os brinquedos guardados no sótão, as fotografias guardadas nos álbuns, os momentos guardados no coração. a minha casa são os meus amigos. aqueles que me entraram na vida aos 3 anos e os que continuam a entrar aos 19. a minha casa são os professores que eu tive. a minha casa é filosofia para crianças e mini-calculadoras. a minha casa é o “acho-bem” e o “acho-mal”. a minha casa são as estórias do Nuno. a minha casa é a Isabel a fazer-me festinhas no cabelo e a Cristina a chamar-me Primeira Ministra. a minha casa parece ter existido sempre, ainda antes de existir o mar e o tempo, como se de um rosto de mãe se tratasse. a minha casa foi A Torre. |